Mestre em Educação fala sobre a transformação dos professores para transformarem os alunos

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O mestre em Educação, José Pacheco, é conhecido internacionalmente como um dos idealizadores da Escola da Ponte, unidade educacional pública de Ensino Fundamental localizada em Portugal, que rompeu as barreiras do Ensino ao propagar que os professores devem mudar a sua pedagogia, de forma que os alunos busquem o aprendizado e não apenas recebam informações prontas.

Esta trajetória singular começou em 1976, quando ele, na época eletricista, se sentiu fracassado como professor de uma turma disposta a não aprender. Há dez anos mora em Minas Gerais, em Nova Lima, e tem se tornado referência na Pedagogia do Brasil como uma saída frente às dificuldades do tradicionalismo na Educação, ainda mais em período de digitalização. Hoje (08), à noite, ele será palestrante do evento "Momento Pedagogia: novo pensar, novo fazer", organizado para as alunas do curso de Pedagogia da Famec. O evento acontecerá na Câmara Municipal de São José dos Pinhais. Confira a entrevista exclusiva de José Pacheco ao PautaSJP.com.

PautaSJP.com - De pequenos a grandes municípios brasileiros o discurso dos gestores públicos é a falta de recursos e de infraestrutura. Em contra partida, existem metodologias que usam apenas o estudo da Natureza para lecionar sobre Biologia, História e Matemática. Como o senhor vê este buraco sem fundo?
José Pacheco - O Brasil não padece de carência de recursos. O País gera mal ou desperdiça recursos. As escolas se converteram ao mundo digital, mas mantêm e reforçam práticas de ensino obsoletas. O improviso e o imediatismo das novas práticas faz prosperar o insucesso. É urgente que se instituam novas e autonômicas formas de organização das escolas, mas também recuperar práticas antigas, pois é necessário prudência. A mudança em Educação é um processo complexo e moroso, na medida em que para grandes metas devemos ter pequenos passos. Também é urgente que se busque uma escola voltada ao conhecimento com o abandono de um ensino meramente transmissivo. Fomentar a organização do acesso à informação e a aprendizagem do uso do conhecimento.

PautaSJP.com - Como um professor deixa de ser um transmissor de informação para incentivar um aprendizado mais participativo?
JP - A mudança das instituições passa pela transformação do eu das pessoas que as mantêm. Que se estabeleça uma ação pautada na ética da responsabilidade e uma relação dialógica e não hierárquica. Que os professores reelaborarem a sua cultura pessoal e profissional, no exercício da convivencialidade. Que recusem ideias feitas e escapem à síndrome do pensamento único. Existem citações antigas neste sentido. Paulo Freire disse que “não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor”. E Agostinho da Silva acrescentou: “Temos de reorganizar todo o sistema educacional, de maneira que para o aluno brasileiro haja mais esforço no sentido de descobrir a realidade do que ela ser comunicada por um professor. Talvez se nós ouvíssemos o estudante, o estudante viesse com o espírito de descobrimento do século XIV ou o espírito que foi criativo em Canudos”. Basta escutá-los.

PautaSJP.com - A Escola da Ponte se utiliza de aulas fora das salas?
JP - Como diria Stefan Zweig, o Brasil é o país do futuro em neste caso, do futuro da Educação. Temos excelentes teóricos, professores maravilhosos e experiências pioneiras em aulas fora da sala. Afetados pelo “complexo do vira-lata”, quando falamos de “aulas outdoor”, quase sempre nos referimos a Frienet e a sua “aula passeios”, ou outros feitos estrangeiros. Pois fiquemos sabendo que o nosso educador brasileiro Tião Rocha já assim trabalha, há mais de vinte anos. E o nosso Eurípedes fez o mesmo, há mais de cem anos. Na Ponte não há “aulas”. Na escola onde trabalhei por mais de trinta anos, parte-se de desejos e necessidades, de realidades, para construir projetos. Muitos desses projetos são concretizados fora dos muros da escola.

PautaSJP.com - O Paraná, em relação a estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro é mais tradicionalista na área pedagógica?
JP - Permita-me discordar. Os estados do Sul e, em particular, o Paraná, estão entre aqueles que mais ousam partir da tradição para afirmar a possibilidade da inovação. Os colégios Sesi são exemplo claro de uma inovação responsável. Acompanho projetos em Curitiba desde 2001. Muito aprendi com professores anônimos, que buscam fazer dos seus alunos seres mais sábios e pessoas mais felizes.

PautaSJP.com - As escolas, principalmente de nível Infantil e Fundamental, jogam a responsabilidade de Educação para os pais e os pais para as escolas. Exemplo: há dois anos alunos do Colégio Estadual do Paraná, de 11 a 13 anos, transaram no banheiro e filmaram, o que foi veiculado no Youtube. Donos de escolas criticam as famílias e dizem que esta demanda está além das aulas de Educação Sexual. Neste jogo de empurra como ficam os estudantes e como seria um entendimento entre as partes?
JP - Essa sequencialidade regressiva leva as escolas, de qualquer segmento, responsabilizarem as do segmento anterior por todos os males que as afetam. São inúteis processos de desculpabilização, que nada alteram a dura realidade da vida das escolas e da vida dos seus alunos. A educação da afetividade não se realiza em aulas de Educação Sexual. Como nos diz um sábio provérbio africano, é necessária uma tribo para educar uma criança. Infelizmente, as escolas são lugares de solidão e continua sendo difícil constituir comunidades de aprendizagem.

PautaSJP.com - No Brasil, nos anos 70 e 80, as mulheres foram em grande escala trabalhar fora para aumentar a renda da família, o que gerou toda uma geração das décadas de 90 e 2000 que cresceram sem a maior presença da mãe em casa. A responsabilidade em educar pode ter sido empurrada para cima das escolas, afinal, muitas crianças ficam em período integral?
JP - Nas últimas três ou quatro décadas, o modelo de família modificou-se totalmente. Inevitavelmente, as famílias tendem a considerar que as escolas são depósitos de filhos. Pede-se às escolas aquilo que elas não podem (nem devem) fazer. E, quando as escolas nem sequer logram transmitir às novas gerações o patrimônio cultural herdado, o conjunto de conhecimentos considerados no currículo oficial, é urgente que a escola integral se transforme numa escola socialmente integrada e de educação integral. Se o objetivo de uma educação participada não se concretizar, se escola e família continuarem de costas voltadas, mutuamente enjeitando responsabilidades, o fenômeno tende a agravar-se com novas exigências. É necessário que as escolas compreendam que as famílias não deverão ser suas parceiras, que as escolas deverão ser parceiras das famílias.

PautaSJP.com - A Faculdade Famec foi comprada pela Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), e consequentemente o Colégio Sesi passou a funcionar na Famec. O Sesi tem remodelado a proposta pedagógica com base em desempenho e avaliação por equipe, ao invés da avaliação somente individual, e isso ocorre nos cursos técnicos de Ensino Médio e Ensino Médio convencional. Esta mudança pode se estender para outras áreas, como o Fundamental?
JP - Certamente! Não há duas pedagogias e, se pretendemos educar jovens empreendedores, teremos de pensar em cooperação, em trabalho de equipe. E este tipo de trabalho requer uma avaliação coerente, que responsabilize cada membro no contexto da equipe de projeto.

PautaSJP.com - Muitos colégios se tornaram grandes grupos educacionais e a metodologia é ensinada em diferentes estados da mesma forma, de um jeito que a cultura local fica à margem das apostilas. Se trouxerem um professor do Norte para dar aula no Sul o ensino é o mesmo. Isso não pode gerar a falta de interação entre professores e alunos?
JP - Não só gera falta de interação, como produz trágicos efeitos. O Brasil está mergulhado na obscuridade da crença num modelo epistemológico falido e sucessivas gerações de vidas são desperdiçadas. O sistema educativo brasileiro é uma usina produtora de desperdício. Como diria o poeta, o sistema “engole gente e vomita bagaço”. O conservadorismo político mantêm o sistema num rumo suicida. Os analfabetos funcionais são mais de quatorze milhões. Os índices de evasão e exclusão continuam assustadores. Em cada ano letivo, o sistema desperdiça 56 bilhões de reais em corrupções e burocracias. E os responsáveis pela gestão do sistema parecem ficar contentes com um mísero 5, ou 6, na escala do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). Resta-nos sermos esperançosos. Trabalhar para que a mesmice dê lugar a uma escola culturalmente integrada.

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