Único vereador a questionar salário dos legisladores em SJP, professor Marcelo fala ao PautaSJP.com também sobre o assistencialismo entre os 21 representantes da Câmara


Blog Single Marcelo Guilherme é do Partido Verde (PV) e está em seu primeiro mandato
O vereador de São José dos Pinhais deve ganhar salário?
Eu acho que pelo volume de trabalho o vereador deve sim ganhar salário. Não é um cargo em que ele não faça nada. Tem uma série de atribuições. O que a gente tem que analisar não é o salário do vereador, mas o resultado que ele está trazendo para sociedade e com que responsabilidade está exercendo o cargo. Eu dou como exemplo o juiz Sérgio Moro. Se ele pedisse um salário de R$ 100 mil por mês eu acho que nós deveríamos pagar R$ 100 mil mensais. Olha o impacto do trabalho dele nas comunidades. Ele está conseguindo trazer bilhões de reais que foram desviados para os cofres públicos. Então, é vantagem ter vários juízes como Sérgio Moro ganhando R$ 100 mil. O retorno que ele está trazendo para o Brasil é muito grande.

O que o senhor acha sobre a redução do salário dos vereadores em São José dos Pinhais?
Hoje, um vereador custa para a câmara R$ 11 mil por mês. Por ano, o salário do vereador, presidente e secretário, gira em torno de R$ 3 milhões. Se um vereador investigar e conseguir cancelar um contrato de 3 milhões, que esteja superfaturado, ele justificará o salário dele e de toda a Câmara. É vantagem ter esse vereador. Mas se eu tenho um vereador que chega no final do mandato e só fez o assistencialismo ou alguns projetos de lei como nomes de ruas e de escolas, e não mostrou nenhum resultado para comunidade, ele sai muito caro para a população. Por isso, eu acredito que não se deve mexer no valor do salário do vereador de São José dos Pinhais por causa do volume de trabalho. O município tem quase R$ 1 bilhão em contratos e o vereador e a sua equipe devem estar atentos em relação aos acordos. Cada processo investigativo demora em média oito meses. Desta forma, um salário não estaria nem muito alto e nem muito baixo. É um valor que atenderia o papel e a responsabilidade do vereador.

Por que o senhor quis ser vereador?
Eu sou um dos fundadores do pré-vestibular gratuito Em Ação. Que não é apenas um pré-vestibular, mas um movimento social que busca colaborar com a Educação. A ideia é que depois de formados os alunos possam ajudar outros estudantes. Nós temos ex-alunos que hoje são médicos e advogados e que atualmente financiam outros acadêmicos. São aproximadamente 700 alunos atendidos. A ideia é que estes futuros universitários ocupem lugares de destaque na sociedade e façam a transformação que a sociedade precisa. Na época, decidimos escolher alguém para entrar na política. Como ninguém quis, e o meu nome foi cogitado, eu aceitei de pronto porque como faço parte de um movimento social há um objetivo maior, e não poderia recusar o projeto.

Como é a rotina de um vereador em São José dos Pinhais?
Obrigatoriamente eu tenho que comparecer na Câmara duas vezes por semana. As sessões acontecem às terças e quintas-feiras, das 9h até no máximo 11h. Mas eu não permaneço somente este tempo no Legislativo. Para ir na sessão necessito ler em torno de 300 páginas. Eu nunca posso ir ao Plenário sem essa leitura. É inadmissível que um vereador compareça à votação sem antes ler os projetos que vão definir o futuro da cidade. E não é só ler. Tenho que me reunir com a minha equipe para fazer análise e buscar informações. É um trabalho muito técnico. Outra atribuição é a elaboração de propostas. Não adianta entrar na internet e pegar um projeto de lei que já existe em outro município. Tenho que fazer uma análise e adaptá-lo à realidade de São José dos Pinhais. Buscar orientação jurídica, levando em conta a Constituição Federal, as leis municipais e o regimento interno. Tudo isso, para que a proposta seja aprovada pelo Executivo. Mas, para mim, a principal função do vereador é conferir e analisar convênios e contratos que o Poder Público está realizando com a iniciativa privada, com os órgãos do terceiro setor e outras instituições governamentais.

O que o pensa sobre o assistencialismo?
Fiscalizar é o mais importante para o vereador. Fico muito triste quando recebo pessoas no meu gabinete pedindo para pagar conta de luz, gás, passagens e prendas para bingo. Elas estão completamente equivocadas sobre a função do vereador. Se eu fosse atender todos esses pedidos de pula-pula e algodão-doce para festas de crianças não sobraria nada e eu não conseguiria fazer o trabalho efetivo de vereador. Repito, é muito melhor um vereador cancelar um processo de licitação de 30 milhões do que ele ficar dando cesta básica. Isso é demagogia. O assistencialismo é o câncer da política. Eu fico muito feliz quando uma pessoa vem até o gabinete para fazer uma denúncia sobre um posto de saúde que não funciona ou sugerir um projeto de lei.

O que aconteceria se acabássemos com o salário dos vereadores e o que pensa sobre a reeleição?
As pessoas da classe trabalhadora jamais ocupariam um cargo público. Então teríamos vereadores somente da elite. Isso prejudicaria a representatividade das camadas mais pobres da população. Acho que a reeleição para o mesmo cargo é nocivo para a formação de novas lideranças. As pessoas que permanecem no poder por muito tempo formam seus redutos e se reelegem praticamente sozinhas. Eu gostaria que não houvesse reeleição e que o mandato fosse de cinco anos. Eu pretendo ir para mais uma eleição, mesmo não compactuando com essa ideia, porque atualmente é o único modo de deixar um sucessor para dar continuidade em nosso trabalho.

O que tem a dizer para os eleitores que estão indignados com os políticos?
Que se envolvam com a política. Devem se filiar a um partido para escolherem pessoas decentes como candidatos ou até mesmo saírem como candidatos. Porque se as pessoas de boa índole não fizerem isso os maus vão continuar tomando conta. Outro problema é a quantidade de políticos sem nenhum preparo. Existem muitas pessoas não qualificadas que até possuem boas intenções, mas como existem muitos corruptos, essas pessoas sem qualificação são facilmente ludibriadas. Gente de bem na política, hoje, é minoria. Por isso, temos dificuldade para que as coisas aconteçam. Não basta ser do bem. Tem que ser qualificado e ter uma equipe qualificada para que as coisas funcionem. Por isso, é muito importante que as pessoas que querem mudanças participem diariamente na construção de uma democracia mais eficiente para a cidade e o nosso Brasil.

Jornalista João Henrique Nóbrega especial para o PautaSJP.com

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