O império da covardia

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Adelino Venturi*

Na flor da idade (15 anos), Eloá Cristina Pimentel transformou-se nesta semana em tema absoluto das análises do comportamento humano, depois de ter sido assassinada barbaramente pelo ex-namorado, um tal de Lindemberg Alves, na cidade paulista de Santo André.
O martírio dessa jovem durou cerca de cinco dias. A nação rezava por um final feliz, mas poucos acreditavam que o seqüestrador fosse dotado da moral das pessoas de bem, a defesa da vida; que era realmente um jovem apaixonado.
Ele ansiava por uma vingança vil.
Contrariado no desejo ardente de posse, de ser mandatário, de provar masculinidade perante companheiros de tribo, Lindemberg engendrou um espetáculo de horror.
Sob holofotes da mídia, imaginou ser intérprete de um macabro big brother.
Eloá e sua amiga Nayara, também de 15 anos, foram as vítimas neste cenário de covardia.
Questiona-se, agora, sobre a atuação da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Isso é válido, principalmente para balizar novos enfrentamentos do gênero. Presume-se que por receio de ter de explicar à sociedade uma possível ação mal-sucedida, no primeiro dia do seqüestro, a polícia deixou de cumprir a regra básica: a defesa da vítima.
De acordo com especialistas, os atiradores de elite da PM tiveram várias oportunidades para um disparo certeiro no seqüestrador. Optou-se pela negociação, imaginando-se que se tratava de um jovem apaixonado e movido pelo medo de perder a bem-amada.
Ao contrário, Lindemberg provou ser somente um covarde, que aproveitou a oportunidade para explicitar seu instinto assassino. Nada mais.
Agora, lamenta-se a perda irreparável de Eloá e a agressão física e moral à Nayara.
Há, porém, que se lamentar com a mesma ênfase a crise ética e moral que assola a sociedade brasileira. Nos grotões vive-se um cotidiano de imoralidades: o rompimento do tecido social, a ausência do conceito de família, a descrença na fé religiosa; enfim, a decadência dos valores da sociedade. Reflete-se para as áreas mais distantes e periféricas da sociedade o espelho dos maus exemplos de instituições públicas e privadas corroídas pela ganância, devastadas por ações de corrupção e desmandos.
Cabe a nós membros desta sociedade, com consciência crítica, alertar para o caos social e institucional.
Essa é uma situação de pânico, que interfere em todas as áreas, no nosso lar, no nosso trabalho, nas nossas relações sociais e culturais. Há um temor crescente de que em pouco tempo não haverá mais controle dos excessos e que prevaleça sobre a sociedade ética e normal a sociedade marginal.
Aos 22 anos de idade, Lindemberg retrata esse cenário de imoralidades, de uma sociedade que tem de realizar com urgência sua autocrítica.
Não basta lamentar o martírio de Eloá. É preciso reagir à decadência dos valores culturais, ao comportamento abaixo da crítica de pessoas públicas e privadas.
A tragédia em questão não se deu ao acaso. O comportamento criminoso e covarde do seqüestrador de Eloá e Nayara, que pode se repetir com outros personagens em qualquer hora, em qualquer lugar, é a conseqüência trágica de uma cultura de nivelamento rasteiro e discriminação. O fator “passional” foi apenas uma justificativa pífia para o império da covardia.

*Adelino Venturi é professor, empresário e coordenador da Câmara Setorial Imobiliária da Associação Comercial, Industrial, Agrícola e de Prestação de Serviço (Aciap), de São José dos Pinhais

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