Doutor em mosquitos detalha ações preventivas contra a dengue


PautaSJP.com traz segunda matéria da série. Especialista destaca os cuidados com o Aedes aegypti, incluindo a importância do descarte correto do lixo.

Blog Single O biólogo Mário Luis Pessôa Guedes teve o Aedes aegypti como inseto vetor de enfermidade no seu doutorado pela UFPR
Estamos na Primavera e a florada é muito importante para combater a dengue antes do verão. São José dos Pinhais está em campanha para que a prevenção ao Aedes aegypti aconteça antes das épocas de maior calor. Depois da reportagem sobre ações da Prefeitura, e conversa com moradores do Jardim Itália, o PautaSJP.com entrevista Mário Luis Pessôa Guedes, doutor pela UFPR na área de Entomologia, segmento da Zoologia que estuda insetos. Mário é professor e gerente técnico e operacional no manejo de pragas. O biólogo enfatiza a necessidade de ações integradas de educação em saúde, comunicação e mobilização social.

- Na sua experiência, existem estudos na relação direta ou indireta de locais com lixo e maior incidência da dengue via o Aedes aegypti?
Todo e qualquer recipiente que possa acumular água, mesmo que em pequena quantidade, é um criadouro em potencial para o Aedes aegypti. O mosquito encontra nos espaços urbanos condições favoráveis para um rápido e confortável desenvolvimento. Não é somente o lixo que pode servir de criadouro, muitas vezes, itens dentro de nossas residências se prestam para o mesmo fim, como vasos de plantas, calhas, piscinas sem uso, entre outros, por isso, se torna difícil realizar estimativas. Porém, existem estudos que relacionam a presença do mosquito vetor e a ocorrência de casos da dengue em cidades com incidência e mortalidade acentuada nos bairros periféricos e com maiores densidades populacionais. Há correlação com fatores como a urbanização acelerada, a deficiência nos serviços de saneamento básico, a falta de conscientização ambiental, a disposição inadequada dos resíduos sólidos, e pela intensa utilização de materiais não-biodegradáveis, como recipientes descartáveis de plástico e vidro, e mudanças climáticas, na medida que esses fatores determinam a qualidade do ambiente urbano e se associam diretamente à relação saúde x doença.

- Mesmo sem um estudo específico de longa data, o consumo pela população gera mais lixo e maior preocupação com doenças como a dengue?
Os dados mais recentes sobre resíduos sólidos demonstram crescimento anual na produção. Atualmente, o Brasil encontra-se entre os cinco países que mais geram resíduos. Em média, o brasileiro produz mais do que um quilo de lixo diariamente e, deste montante, cerca de 40% são de resíduos recicláveis e reaproveitáveis. Em território nacional, cerca de 60% dos municípios não têm destinação final adequada de lixo, sendo assim, aproximadamente, 40% de todo o lixo produzido não foi destinado de maneira correta (dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Em uma análise rápida, essas informações nos fazem pensar na quantidade de lixo produzida e destinada de maneira inadequada, tornando possíveis criadouros de Aedes aegypti e assim nos demonstrando a importância de se pensar sobre o assunto.

- Desde o seu doutorado, há quatro anos, surgiram novidades quanto a possíveis campanhas de menos lixo?
Infelizmente, as políticas públicas são cada vez mais escassas e insipientes, ao passo que a despreocupação e desinteresse da população acompanha essas políticas. Cada vez mais são esperadas ações do governo que resolvam ou que mitiguem o avanço da doença, muito embora é o olhar prevencionista de cada cidadão que contribuirá para a redução dos criadouros, uma vez que estes estão nas nossas casas e são gerados pelos nossos hábitos de consumo.

– A população até se preocupa com as doenças, mas os resíduos?
Vinculam-se na mídia mensagens como: “não deixe água parada” em locais onde existem problemas com o abastecimento, ou, “separe o lixo”, mas em muitas cidades não existe a coleta seletiva no bairro. Essa falta de alinhamento entre discurso e prática é um agravante nas ações preventivas e educativas sobre o tema. Educar a população continua a ser o maior desafio do governo para enfrentar o problema. As condições sociais repercutem de forma decisiva sobre a dinâmica de transmissão da doença sendo necessária a adequação das estratégias de controle vetorial e políticas públicas adaptadas à realidade local.

- Dengue se combate no outono, inverno, primavera e verão, como tem sido trabalhada esta questão no setor público e o que o privado pode fazer?
A maior proliferação do mosquito ocorre nos meses de verão, em função da elevação da temperatura e da intensificação de chuvas, fatores que propiciam a eclosão de ovos do mosquito. Muito embora, é observado que as condições climáticas vêm se alterando anualmente, propiciando a intermitência da ocorrência do mosquito, como por exemplo, a presente estação, Primavera, bastante chuvosa e com temperaturas mais elevadas do que a média. Para evitar esta situação, é preciso adotar medidas permanentes para o controle do vetor, independente da estação, a partir de ações preventivas de eliminação de focos do vetor. Como o mosquito tem hábitos domésticos, essa ação depende muito do empenho da população em contrapartida dos serviços públicos.

- Muito usado em municípios em epidemia, o chamado fumaçê pode não apresentar o resultado esperado?
Por muitos anos, as estratégias de controle ao vetor foram realizadas de forma paliativa, focadas na forma alada, utilizando inseticidas de impacto moderado, evitando gastos elevados. Isso propiciou a adaptação do mosquito e, atualmente, diferentes regiões geográficas no Brasil apresentam populações de Aedes aegypti com algum nível de resistência aos inseticidas utilizados em seu controle. É necessário ressaltar que a principal medida de controle do mosquito é a eliminação dos criadouros. Os inseticidas são recomendados como estratégia complementar, em situações específicas. Seu uso indiscriminado é justamente um dos desafios da sociedade. É necessário avançar no sentido de perceber os problemas socioambientais urbanos e propor soluções mais efetivas, perspectivas que busquem a interação de todos os agentes inseridos no espaço urbano. Apesar do avanço recente no desenvolvimento de vacinas, vale lembrar que o mosquito Aedes aegypti é capaz de transmitir outras doenças além da dengue, se destacam, o zika vírus, a febre amarela e a chikungunya. Logo, é necessário adotar medidas prevencionistas, diminuindo a possibilidade de reincidência destas doenças ao longo do tempo.

– Sobre São José dos Pinhais e região de Curitiba, qual informação em relação aos perigos da dengue nestas localidades?
No último boletim sobre a doença divulgado pela Secretaria de Estado da Saúde no início do mês, o Paraná registra 25 casos confirmados, destes 19 autóctones (cuja infecção ocorreu no Estado) e seis importados, nenhum deles na região de Curitiba. Os números correspondem ao novo ano epidemiológico iniciado em agosto e que termina em julho de 2019. Existe uma diminuição nos casos de dengue nos últimos dois anos no Paraná, assim como não foram registrados casos de zika e chikungunya, durante esse período. Apesar dos números, há avanço nas ações de combate e controle do vetor nos últimos anos, porém, atenta-se que no ano passado houve mortes no Estado decorrentes à doença. É necessário deixar claro, também, que apesar de não haver casos de dengue na região de Curitiba, no período registrado, o mosquito está presente em quase todos os bairros e municípios ao redor da capital. Com o início do período de chuvas e calor, condições propícias para a proliferação do mosquito, não devemos esmorecer e os cuidados devem ser intensificados.

– Fale sobre sua pesquisa no Doutorado.
Durante minha vivência acadêmica, pesquisei algumas espécies de mosquitos que a saúde pública tem interesse, sendo aqueles que são vetores de enfermidades. Durante estes anos, observa-se que, apesar de existir muita informação, as políticas públicas e a população ignoram o pensamento prevencionista. Investimentos diminuem, assim como a capacidade de gerar novas informações que contribuem para a perspectiva geral de combate e controle do Aedes aegypti. Hoje em dia, como professor, percebo que é necessário sempre enfatizar a necessidade de ações integradas de educação em saúde, comunicação e mobilização social.

- Quais suas palavras finais nesta entrevista?
Apesar da existência de uma vacina para dengue, as opções de medidas de controle disponíveis ainda são restritas e têm como objetivo a redução dos índices de infestação por Aedes aegypti, realizada por programas de controle vetoriais que são caros e difíceis de se manter. Dentre os componentes do Programa Nacional de Controle da Dengue (PNCD), estão o combate ao vetor e as ações integradas como já mencionei. As falhas nas gestões públicas afetam a consolidação das ações propostas, dificultando as ações de saúde, ambiental, social e da população. Também é importante considerar outros fatores, como por exemplo a disposição inadequada de resíduos sólidos, o nível de renda, e o nível de escolaridade de determinada população, que constituem-se em potenciais condicionantes para difusão e perpetuação dessa doença.

Confira a reportagem anterior
A limpeza correta do lixo doméstico e na rua evita o Aedes aegypti. PautaSJP.com inicia série de três reportagens sobre a importância da prevenção antes do verão, incluindo a coleta de recipientes que possam manter o ciclo do mosquito.
http://www.pautasjp.com/noticia.php?nid=4330

PautaSJP.com


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