Pais de autistas fazem manifestação contra Unimed


Plano transfere atendimento especializado e gera insegurança quanto à continuidade dos tratamentos em Curitiba e RM

Blog Single Manifestantes foram para a frente da Unimed Curitiba (Fotos: Giorgia Prates)
Após meses tentando entrar em um acordo, sem sucesso, a União de Pais pelo Autismo (UPPA) e o Movimento Vivendo a Inclusão realizaram, na tarde desta terça-feira (23), uma manifestação em frente à Unimed Curitiba, no Alto da XV. O encontro teve reivindicações, cartazes e até samba. Foi a forma que o grupo encontrou de chamar atenção da operadora de plano de saúde para um problema que vem preocupando os responsáveis por crianças e adolescentes que necessitam de tratamentos especializados.

Recentemente, a Unimed transferiu atendimentos, antes realizados por profissionais autorizados, exclusivamente para sua nova rede credenciada. As mudanças, no entanto, podem significar regressão para alguns pacientes, como autistas, afirmam os pais. Eles reclamam ainda da falta de vagas para consultas e pouca atenção do plano às tentativas de acordo.

“Estamos orientando os pais e coletando informações e reclamações das famílias para um dossiê que iremos levar ao Ministério Público. Não é de agora que temos que entrar na justiça contra a Unimed”, lembra a terapeuta Adriana Czelusniak, uma das organizadoras da manifestação.

“Eu fui enganada pela Unimed por muitos anos, até que juntei dinheiro, entrei na justiça e consegui direito à terapia especializada para meu filho. Agora, de uma hora pra outra, dizem que não vão mais pagar estes profissionais que já têm o vínculo com ele, o que é essencial para o tratamento do autismo.”

O descredenciamento dos prestadores de serviço das terapias especiais (como psicomotricidade, musicoterapia, psicopedagogia, fonoaudiologia, psicologia e terapia ocupacional) teve início em 2018 mas, com a quantidade de reclamações, a Unimed concedeu mais tempo para a migração dos clientes à nova rede credenciada.

“Há quatro anos meu filho possui uma rotina intensa, de dois a três atendimentos por dia, de segunda a sexta, e evolui a cada dia. Porém, desde o ano passado, a Unimed vem enviando cartas, ameaçando suspender o tratamento, oferecendo serviços inferiores, com profissionais que não são especializados, qualificados nem certificados, em estruturas precárias, alguns locais fora de Curitiba, sem normas e técnicas adequadas para a demanda dos pacientes. E o pior, não possui agenda para atendê-lo”, critica a jornalista Lucianne Santos.

A vice-presidente da UPPA, Rosi Mendes, conta que a operadora não tinha uma rede credenciada para estes atendimentos especiais. Com o número crescente de ações judiciais, houve o cadastramento de profissionais para estas terapias.

“Só que agora, depois de um tempo significativo de tratamento, querem descredenciar os profissionais que possuem um grande vínculo com nossos filhos e passar os atendimentos para clínicas credenciadas, que não têm capacidade para atender estas pessoas. Estas clínicas não têm experiência, formação nem estrutura física para atender às crianças e aos adolescentes com autismo e outras deficiências. E o mais importante, não se pode romper um vínculo terapêutico assim. O progresso no tratamento se deve muito ao vínculo”, reforça.


Sem acordo
Rosi destaca ainda que o grupo tenta há meses um diálogo com a Unimed. “Tentamos mostrar a importância do vínculo terapêutico, mas eles não conseguem dar a devida importância para isso. Nossa luta é para que não prevaleça o mais barato mas sim para que possam dar a nossos filhos a chance de evoluírem.”

Profissional anteriormente habilitada pela Unimed, a terapeuta ocupacional Renata Lacerda, especialista em síndromes com comprometimento neurológico, ressalta a importância do vínculo nestes tipos de tratamento e conta por qual razão não aceitou credenciar sua clínica a nova rede da operadora.

“A primeira proposta de contrato que me passaram previa diminuição das sessões das crianças e domínio da operadora no plano de tratamento, o que inclui a alta. Um absurdo. Reduzem drasticamente os valores das sessões e amarram a eles o tipo de tratamento e a quantidade.

Sugeri mudanças nestas cláusulas contratuais a fim de proteger meus pacientes e o tratamento deles”, garante. Para ela, é necessário trabalhar estes pacientes de forma multidisciplinar, com métodos diferenciados e atuais.

De acordo com a advogada Jaqueline Lisotti – que representa o grupo de pais de crianças com Transtorno do Espectro Autista, Paralisia Cerebral, Síndrome de Down e Síndromes Raras – as clínicas credenciadas pelo plano de saúde nem sempre possuem profissionais especializados para os atendimentos e, se possuem, já estão lotadas, inclusive com filas de espera – o que contraria Resolução da Agência Nacional de Saúde (ANS) que estipula prazo máximo de 10 dias úteis para o plano fornecer as terapias prescritas.

“Desde que a Unimed começou a enviar as cartas determinando a migração para a rede credenciada, os pais procuraram a operadora para conversar e demonstrar que a mudança será prejudicial aos pacientes, pois a formação de vínculos com novos profissionais demanda meses, durante os quais não há evolução, podendo haver inclusive regressões”, completa a advogada.

Outra queixa apresentada pelos pais foi de que as credenciadas não possuem profissionais especializados nas técnicas terapêuticas em quantidade suficiente para atender aos pacientes. “Porém, os argumentos das famílias não eram considerados. Somente há cerca de 20 dias é que a Unimed Curitiba iniciou uma conversa com os pais, mas ainda há muitos casos sem solução”, assegura Jaqueline.


Outro lado
Procurada pelo Plural a Unimed Curitiba informou que atende aproximadamente 1,1 mil pacientes em terapias pediátricas especiais. Na nova rede estão credenciadas nove clínicas, cada uma delas com aproximadamente 40 terapeutas.

Em nota, a operadora diz que “foi a primeira de planos privados de assistência à saúde do Brasil a autorizar os atendimentos de terapias especiais para as crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e paralisia cerebral, oferecendo aos seus clientes muito mais do que é exigido pela legislação que regula a sua atividade.”

O texto ressalta a capacidade e a habilitação da rede credenciada e destaca que, “de maneira alguma, foi interrompida a prestação da assistência à saúde aos clientes”.

“Ocorre que, como alguns clientes vêm recebendo assistência em prestadores até então autorizados pela Unimed Curitiba, isso antes de formação da rede credenciada, algumas famílias resistem quanto à migração do atendimento para tal rede.

Após diálogo com as famílias, a Unimed Curitiba prorrogou para até 180 dias a migração para a rede credenciada, sendo que, após avaliação médica com apoio do médico assistente dos clientes, será instituído cronograma individualizado para que isso se concretize.

Muito embora essa mudança de prestador gere uma alteração de rotina e a necessidade inicial de adaptação, ao se ampliar a visão, o horizonte que se vislumbra é o de verdadeira garantia de continuidade e segurança no atendimento aos clientes pelos prestadores credenciados.

Por fim, a partir deste mês, será instituído um grupo de pais de clientes com autismo e paralisia cerebral com o propósito de estreitar a relação com eles, vital para a obtenção do sucesso que tanto eles quanto a Unimed Curitiba almejam.

Em que pese tudo isso, alguns pais se opõem à utilização da rede credenciada, razão da manifestação que ocorre na tarde de hoje nas adjacências da unidade da Unimed Curitiba localizada na Rua Itupava. A cooperativa ratifica que respeita o direito à livre manifestação”, encerra a nota.


Nota dos pais
Após publicação da matéria, nesta quarta (24), os pais envolvidos no manifesto enviaram a seguinte nota ao Plural:
“Depois das declarações enviadas pela Unimed ao Plural, o grupo de pais ressalta que não se trata de resistência de algumas famílias, mas de exigência geral da comunidade e de cerca de 200 famílias por transparência e respeito ao tratamento das pessoas com deficiência e autismo. Enquanto a Unimed não mostrar comprometimento com as intervenções terapêuticas e com o vínculo defendido pelos próprios médicos, enquanto não oferecer clínicas credenciadas com a certificação de cada um dos profissionais e estrutura adequada, as famílias continuarão exigindo seus direitos. Convidamos a todos que se sentem prejudicados pelo atendimento prestado pela operadora de saúde a nos contactarem pelo link bit.ly/paraunimed além de levar as insatisfações à ouvidoria do próprio plano e à ANS. Também temos abaixo-assinado que será entregue em breve ao Ministério Público com todo o histórico de tentativa de negociação.”

PautaSJP.com e informações www.plural.jor.br – jornalista Mauren Luc






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