Zoológicos humanos e seus moradores são tema de novo livro de Guido Viaro

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Escritor curitibano lança sexto romance independente sobre exposições de povos colonizados

Da segunda metade do século XIX até a década de 50 do século XX, várias capitais da Europa exibiam seres humanos como atrações em zoológicos. Membros de tribos africanas, esquimós, povos indígenas da América do Sul, tuaregues árabes e outras populações de tipo físico, cor de pele, raça e costumes distantes e diferentes dos europeus eram confinadas em jaulas e expostas à visitação pública mediante pagamento de ingresso, ao lado de outras espécies animais. A prática era comum na maioria dos zoológicos das grandes cidades da Europa e servia como forma de reafirmar a supremacia branca européia sobre os povos colonizados.

Esta situação de exploração do ser humano por seu semelhante inspirou o escritor curitibano Guido Viaro a escrever seu sexto romance, NO ZOOLÓGICO DE BERLIM, uma produção independente de 235 páginas. A idéia de criar a obra veio de uma visita de Viaro ao zoológico da capital alemã.

“Uma guia turística mostrava o parque a um grupo de americanos. Ela contou que aquele mesmo zoológico, hoje famoso pelo ursinho Knut, já havia exposto seres humanos no passado. Voltando ao Brasil resolvi pesquisar o assunto, e descobri que na segunda metade do século XIX esse tipo de exibição era extremamente comum”, lembra Viaro.

Segundo Viaro, que estudou a fundo o tema antes de escrever o livro, não somente o zoológico de Berlim exibia seres humanos, mas também os zoos de Barcelona, Paris, Stuttgart, Turim, Nova Iorque, entre outras grandes cidades da Europa e Estados Unidos.

“Nas grandes exposições mundiais, como a de Londres em 1851, a de Paris em 1889 e até na de Chicago em 1906 havia seres humanos expostos. Estas pessoas eram capturadas em seus locais de origem ( África, América do sul, Pólo norte), e trazidas à força para exibição. A maioria morria nos longos percursos de navio, outros morriam no cativeiro. Alguns poucos sobreviviam até ganhar a liberdade, quando seu apelo exótico havia se encerrado e não mais despertava interesse na população européia”, conta o escritor.

No início do século 20 essa prática continuou, mas já havia muitas das pessoas expostas que recebiam uma pequena remuneração, e até circulavam livremente pelo zoológico sendo expostas, mas não em cativeiro. A última pessoa exposta assim foi vista em 1956, no zoológico de Berlim. Em Bruxelas, em 2002, houve uma exposição de pigmeus, que apesar de receberem remuneração gerou uma onde de protestos.

O livro NO ZOOLÓGICO DE BERLIM é uma obra ficcional baseada em fatos reais. Conta a história de M' ba Nkrumah , um africano de trinta e poucos anos casado e com dois filhos, que trabalhava na agricultura e que vivia na colônia alemã da África Oriental (atual Tanzânia).

Fluente em alemão, M 'ba é capturado e levado para exposição no zoológico de Berlim. Depois de um período de grande depressão onde cogita o suicídio, ele decide que, para ajudar a suportar a rotina, vai escrever um diário contando os eventos de seus dias.

O livro, portanto é a transcrição desses diários. Além de relatar os acontecimentos, M´ba impõe questionamentos, expõe suas dúvidas, questiona o sistema tribal, a civilização ocidental, Deus e os sentimentos humanos, expondo de maneira clara a montanha-russa emocional que viveu o período em que ficou confinado.

Ele tem dois companheiros de condição, um índio norte americano e um esquimó, os quais nunca chegou a conhecer por estarem expostos além de seu campo de visão. Mesmo assim quando descobre que tinham morrido em cativeiro, sofre um grande golpe: naquele instante boa parte dele mesmo havia morrido.

M'ba sabia ser sua condição simbólica, e por isso mesmo, muito mais do que sua própria vida, o que estava em jogo era qual seria o caminho que a humanidade tomaria em relação a seus semelhantes. Muitos dos visitantes lhe prestavam solidariedade e julgavam um absurdo sua presença ali, mas outros não o achavam diferente de um macaco ou de um leão.

“Ao final do século XIX, o mundo presenciava uma virada de página, uma esquina, onde muitos poderes imperiais desmoronavam para dar lugar às novas repúblicas, e elas traziam consigo a promessa de um admirável mundo novo, no qual o cidadão teria direitos e todos seriam iguais perante a lei. As forças antigas estavam sendo minadas pelas da modernidade, mas as velhas forças ainda conseguiam manter o cadeado de sua cela bem trancado. Essa certeza de que o velho navio estava fazendo água ajudou-o a continuar, contra tudo e todos, a escrever suas páginas e contar sua história”, lembra Viaro.

NO ZOOLÓGICO DE BERLIM é o sexto romance de Guido Viaro, autor de O Quarto do Universo (que teve versão cinematográfica dirigida pelo próprio autor), A Mulher que Cai, Glória, A Praça do Diabo Divino e Embaixo das Velhas Estrelas.


O autor também está disponibilizando o livro para download gratuito no endereço www.guidoviaro.com.br.

Assim como nos livros anteriores, exemplares O ZOOLÓGICO DE BERLIM já foi distribuído para 800 bibliotecas públicas de todo o Brasil. O sistema de distribuição alternativo vem permitindo o acesso aos livros para quem não mora em Curitiba e também estimula mais pessoas a ler as obras.

Viaro é neto homônimo do pintor italiano que foi um dos mais ativos representantes do Modernismo nas Artes Visuais no Paraná.



SERVIÇO
Livro NO ZOOLOGICO DE BERLIM, de Guido Viaro.
Edição independente (235 páginas)
Venda direta com o autor pelo site www.guidoviaro.com.br

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