Quando a esperança vem de fora

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Em São José dos Pinhais, quatro crianças foram adotadas por pais estrangeiros em 2008

A exigência da grande maioria dos brasileiros interessada em adotar (menina, branca, olhos claros, recém-nascida) faz com que a adoção internacional seja uma opção da Justiça para permitir um novo lar a muitas crianças e adolescentes nascidos no Brasil. Um consenso legal entre os países autoriza pais estrangeiros a procurar aqui seu novo filho. Para isso, existem regras e comissões judiciárias espalhadas em todos os estados. No Paraná, só no ano passado, 71 crianças foram adotadas por pais estrangeiros. Quatro delas em São José dos Pinhais.

Dos países que ratificaram termos para adoção de cooperação mútua entre as nações (estabelecidos na Convenção de Haia, em 1993), a Itália é a que mais adota no Paraná. Das 34 adoções internacionais autorizadas no estado em 2008, 23 foram para pais italianos. Em São José dos Pinhais, a Itália também foi o destino das duas adoções internacionais realizadas no ano passado. “A migração de grandes colônias italianas para o sul do Brasil, no século passado, faz com pais italianos reforcem seus pedidos de adoção na região”, explica a coordenadora da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja) do Paraná, Jane Prestes.

Ela lembra que pais estrangeiros precisam ser habilitados pela Justiça de seus países e também pela Justiça brasileira. Depois de habilitados, eles aguardam na fila. “A prioridade é de pais brasileiros, depois de brasileiros residentes no exterior, estrangeiros que moram no Brasil e só depois abrimos para estrangeiros residentes lá fora”, conta Jane.

Um estágio-convivência no Brasil entre filhos e novos pais estrangeiros também é obrigatório. “É um período, de até 30 dias, essencial para percebermos a adaptação entre eles”, diz Jane. Ela lembra que, apesar de o Brasil ser muito procurado quando o assunto é adoção, ainda existe um grande número de crianças na fila para serem adotadas. “Só no Paraná são 450. A maioria, adolescentes.”


Histórias que ultrapassam fronteiras
O trabalho voltado à adoção presencia histórias que evidenciam a importância deste ato, independente de onde vêm os envolvidos. Pai adotivo e advogado, Paulino Cortes atuou em diversos casos de adoção internacional. “É uma ação que faz toda diferença na vida daquelas crianças”, acredita Cortes, lembrando de um caso que o marcou. “Eram três irmão são-joseenses. Durante o estágio-convivência, um deles não aceitou a adoção. O casal acabou adotando apenas dois deles. Anos mais tarde, descobri que os adotados viveram felizes e se tornaram médicos. Aquele que aqui ficou viveu sem pais, e hoje está preso”, lamenta.

“Tivemos também o caso de um grupo de seis irmãos, que ninguém queria adotar. A saída foi permitir a adoção deles em duplas, mas para pais com a mesma nacionalidade. Sabendo da história, os casais resolveram comprar apartamentos no mesmo prédio, e todos se tornaram uma grande família”, conta o advogado.

A assistente social Jane Prestes, coordenadora da Ceja no Paraná, também já viveu histórias emocionantes durante os 40 anos dedicados ao trabalho com crianças. “A adoção é uma comunhão de almas. Dentre tantas histórias que provam isso, lembro do dia em que fui contar a um pai sobre a criança que ele iria adotar. Quando falei sobre uma mancha que ela tinha no corpo, o pai começou a chorar compulsivamente. Em seu corpo, havia uma mancha idêntica e no mesmo lugar que seu novo filho.”

[PautaSJP.com - texto e foto: Mauren Lucrecia]

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